domingo, 22 de setembro de 2013

Nona rodada, miniconto 5


Em busca de um sorriso



Olha para o lado e vê os seus colegas de trabalho sentados à frente do computador, apenas esperando o tempo passar. O tempo, este eterno inimigo que anda rápido demais quando realizamos atividades prazerosas e se arrasta quando queremos que ele voe.

Maria olha mais uma vez seus amigos e pergunta para si mesma se aquele ambiente burocrático, que escolheu para passar o resto de sua vida, fazia algum sentido. Ela investiu quatro anos, estudando e abrindo mão de todos os seus prazeres. Agora, que alcançou os seus objetivos, está ali, sentada no canto de uma sala, apenas cumprindo sua carga horária de trabalho, oito horas por dia, quarenta horas por semana, totalmente entediada. 

Com o passar do tempo viu suas expectativas reduzindo e seus sonhos desaparecendo. Agora ela podia comprar aquele sapato, aquela calça ou aquele vestido, mas nem mesmo isso a estimulava. A única coisa que a fazia feliz era andar de moto. Para ela a felicidade era andar sobre duas rodas. 

Um dia desses, no intervalo do almoço, Maria resolveu ir ao shopping, em mais uma tentativa frustrada de ‘tapar os seus buracos’ existenciais. Depois de muito andar, e não encontrar nada que a interessasse, resolveu voltar à repartição e cumprir suas últimas quatro horas de castigo diário. Ao sair, percebeu a presença de uma moradora de rua que estava sentada no chão. A mendiga observava o quanto as pessoas andavam rápido, sem prestar atenção umas nas outras. De repente, a maltrapilha começou a sorrir um sorriso forte, largo, intenso e sincero. 

Essa atitude, vinda de uma mulher considerada a margem da sociedade, fez com que muitos parassem e olhassem, ainda que timidamente, aquele gesto tão despropositado. Maria, assim como os outros transeuntes, não ficou indiferente. Aliás, pelo contrário, ela ficou parada em frente a mendiga. Ela, pós-graduada, concursada, já havia perdido o estímulo para viver, e aquela criatura desprovida de tudo, até mesmo de sua vergonha, ria debochadamente com toda a sua alma. 

Maria, que no início buscou entender o sentido daquela felicidade, agora se sentia incomodada. Ela ficou fitando a mulher, não se aguentou e foi tirar satisfação:

- Pare de rir tão alto, você está incomodando as pessoas. Se você não parar vou chamar o segurança para retirar a senhora daqui!
A pobre mulher ficou observando, silenciosamente, a ação daquela desconhecida tão descontrolada. E, de repente, sentiu crescer dentro de si uma gargalhada imensa que explodiu na face de Maria.

A funcionária pública investida de sua condição de pessoa de ‘bem’, ajustada à sociedade, perdeu totalmente o controle e pegou a mulher pelo braço:

- Eu já disse para você parar, está surda? Qual é o seu problema? Por que você não para de rir?

- Sorrir é o maior presente que ganhei da vida e assim eu sigo. Eu vejo vocês andando desesperadamente sem saber pra onde e acho isso tudo tão engraçado! – respondeu a maltrapilha.

Maria soltou os braços da mulher bem devagar, com os olhos fixos nos olhos dela e assim ficou.

De longe, uma de suas colegas de trabalho observava o espetáculo e comentou com uma pessoa que a acompanhava:

- Se eu fosse ela, pegava essa moto e não voltava mais.

Depois de sair de uma espécie de transe, Maria percebeu o circo que estava armado e correu em direção ao estacionamento onde pegou a sua moto e saiu sem destino. Aquele dia ela não voltou para a repartição, a partir daquele momento, ela começou a correr atrás do seu sorriso perdido.

Nona rodada, miniconto 4

O Corte



Outro dia voltei à velha casa, pois sou atualmente o delegado que atende àquela jurisdição. Fazia anos não entrava naquele quarto e, ao entrar, vi de novo minha imagem refletida no espelho da antiga penteadeira cujo tampo era entalhado numa placa inteiriça de mármore cinza e que sobrevivera incólume ao passar de todas aquelas décadas. Vendo meus cabelos grisalhos refletidos no espelho lembrei-me de minha imagem refletida ali na infância e de quando naquela penteadeira se encontrava tudo que se referisse a utensílios de maquiagem e higiene pessoal disponível na casa. Lembrei que invariavelmente se encontrava o suporte de louça que guardava o sabonete de eucalipto, a pasta de dentes da marca antiga, o pincel de barba já gasto, a cumbuca para o preparo da espuma de barbear, as navalhas com seus cabos de marfim amarelado, os pentes de osso, e as escovas. Dessas havia as de dentes, as de cabelo, a de unhas e a de roupas que frequentemente era esquecida ali numa saída mais apressada de um ou outro membro do casal então residente no aposento.


A luz da manhã entrava farta pelas janelas do quarto que se situava no pavimento superior do sobrado antigo. Havia no aposento duas janelas, uma logo à esquerda da penteadeira e outra localizada numa das paredes mais longas do quarto e que se conectava à primeira por meio de uma pilar de madeira maciça, talvez peroba, no lado esquerdo de quem estivesse olhando para o espelho. A disposição dos móveis e janelas era tal que se viam as copas das árvores e palmeiras pelas janelas ou refletidas no espelho de cristal que tinha formato elíptico e bordas biseladas. Aliás, esse espelho, desde que podia me lembrar, distorcia as imagens devido ao escoamento lento e inexorável do vidro em direção ao solo. E, quando criança, sempre achava graça ao ver o reflexo ondulado de minha cara, não só naquele espelho especificamente, como em todos os outros que havia na casa centenária. Distorções semelhantes também se viam nos vidros dos mosaicos de vidraças que formavam as bandeiras internas das janelas, criando tênues variações na intensidade na luz e formando faixas dégradés sobre o piso do ambiente. 

A cama de casal, com sua estrutura de ferro batido e o estrado composto de molas e uma trama intricada de arames de aço em forma de losangos, suportava o pesado colchão de crina revestido por grossa camada de algodão sob um tecido externo grosseiro e resistente. Para mim aquela cama estava ali desde o início dos tempos ocupando o centro do quarto com sua cabeceira encostada na única parede cega do aposento. Na parede à direita da penteadeira, além da porta de duas bandeiras por onde se entrava no aposento e que se abria para o corredor que lhe dava acesso, havia ainda o guarda roupas. Ele era construído de madeira escura, provavelmente jacarandá ou mogno, alto e largo o bastante para comportar não só todo o enxoval do casal como também as roupas de cama de uso diário.

Aquele conjunto de objetos, móveis, paisagens e cores me remetiam aos anos de minha infância e aos antigos moradores daquele quarto, num tempo em que a vida trazia uma expectativa boa como aquela que se sente ao entrar no cinema da cidade natal para assistir uma matinê aos domingos. Quem diria que aquele local com suas recordações e imagens se confundiriam um dia com as do cenário de horror que ali se apresentava? 

Sobre aquela mesma cama jazia, onde caíra de costas, meio atravessado com uma das pernas esticada e a outra dobrada se apoiando no piso, o corpo inerte de meu velho tio. Tinha os olhos abertos fixados nas tábuas verde-água do forro situado a quase quatro metros acima da cama. Duas perfurações escuras em seu peito marcavam o local dos tiros. Sob suas costas, uma espessa mancha de sangue empapara a colcha da cama mostrando que os projéteis haviam atravessado o tórax. Podia-se perceber que o homem fora apanhado de surpresa pelo intruso, mas que ainda assim tivera tempo de alcançar uma navalha na penteadeira e com ela fazer sua parte. Tanto que o corpo da invasora se encontrava ali no chão completando a cena do brutal desenlace. 

A intrusa era uma moça morena, bonita e jovem ainda nos seus trinta e poucos anos. Trajava jeans e botas negras cujos canos altos embutiam os jeans até próximo dos joelhos. Usava ainda uma jaqueta de couro negro já um pouco gasta na altura dos cotovelos que delineava seu corpo bem feito. Pena que a enorme mancha de sangue ao seu redor se infiltrando nas tábuas do piso em nada iria valorizar sua silhueta nas fotos que os peritos começavam a tirar e que em breve estariam nos jornais. Podia-se notar pelo rastro de sangue no piso que, depois de golpeada, ela caíra e se arrastara com dificuldade até se encostar à parede ao lado da penteadeira onde lutou inutilmente para conter o sangue que jorrava a cada pulsar do coração. A mão que agora descansava inerte ao lado do corpo fora comprimida desesperadamente sobre o corte sem conseguir impedir que o sangue se esvaísse até a última gota pelo corte profundo em seu pescoço. O golpe lhe pegara por total infelicidade, pois conseguira atingir o velho à queima-roupa como havia planejado por anos e para o que havia se preparado com a escopeta de dois canos que deixara cair ao ser golpeada e que agora se encontrava ali encharcada em meio à poça de sangue. Tanto a arma como o treinamento para seu uso ela conseguira de um cliente em troca de um programa prolongado de fim de semana. 

Ela só não podia prever que na iminência de ser mortalmente ferido, o velho conseguiria alcançar a navalha na penteadeira e desferir com ela um único golpe em direção ao seu rosto, atingindo-a de forma tão certeira. Foi uma fatalidade, pois a lâmina abriu um profundo corte na lateral direita de seu pescoço seccionando sua jugular e matando-a quase tão rápido quanto os ferimentos no peito de sua vítima. 
Mas, afinal, porque nenhum dos presentes se surpreendia com toda aquela violência contra um octogenário num ambiente tão bucólico e com tão poucos bens a serem roubados? O motivo é que todos sabiam que aquela desgraça iria ocorrer, embora ninguém pudesse precisar onde e quando seria. 
O fato é que Márcia, esse era o nome da moça, era a filha única de um casal de colonos que aportara por ali vinte e poucos anos antes quando ela contava com a idade de pouco mais de dez. Com a chegada da puberdade, meu tio Antônio, o fazendeiro morto, apesar de homem bem casado e com filhas da mesma idade que a de sua vítima, passou a abordá-la diariamente no caminho da escola. Ela percorria aquele trajeto desacompanhada porque seus pais eram estrategicamente afastados para trabalhar em algum outro ponto distante da fazenda pelo fazendeiro. Tanto insistiu o homem que um dia, cansado de tantas negativas, atacou-a num trecho mais deserto do caminho e estuprou-a a primeira vez daquela que para ela seria uma série infinita de vezes. Calada, ela logo aprendeu a se submeter à tortura quase diária em troca da garantia do emprego e da sobrevivência precária de seus pais na fazenda. A menina, como tantas outras em sua situação, preferiu não contar aos pais sobre o assédio que sofria.

Mas, se ela nunca falou com os pais, tampouco se conformou ou perdoou o fazendeiro pelo regime covarde de violência sexual a que foi submetida. E ela jurou vingar-se. Com o passar dos anos, o homem foi aos poucos se desinteressando e acabou por permitir sua fuga para a cidade próxima onde, para se sustentar, ela se dedicou de vez à prostituição. Por ser bonita e motivada pelo desejo de vingança, progrediu na atividade logo conseguindo juntar os recursos necessários para dar continuidade ao seu plano de vingança e de em seguida desaparecer para sempre da região. Seu pai, quando finalmente soube de tudo, inconformado com a sorte de sua filha, mergulhou na bebida morrendo menos de dois anos depois de ouvir sua historia. Isso só fez aumentar ainda mais o ódio de Márcia pelo fazendeiro. 
Assim, não era segredo para os conhecidos, fossem eles clientes ou amigos, que a morte de sua mãe, já muito doente e fraca após a morte do marido, daria inicio à contagem regressiva para a execução do plano de liquidar o homem que destruíra sua vida e a de sua família. Tanto estava decidida a isso que no dia da tragédia se completava meros quinze dias da morte da mãe.

Eu me achava mergulhado nesses pensamentos e em outros mais práticos para redigir o relatório quando ouço passos no corredor. Era o Cardoso, um dos peritos, chegando para me informar que a moto da moça fora encontrada ao lado do alpendre de materiais de jardinagem que ficava localizado um pouco afastado da sede. A moto estacionada longe da casa explicava como a moça conseguira chegar até a casa sem ser ouvida pelo velho. Via-se pelos detalhes que iam surgindo que o plano dela havia sido minuciosamente estudado e que o fato do velho estar só na casa não fora mera coincidência. Márcia só precisou estudar as rotinas e atividades de cada morador e funcionário já que a disposição interna dos cômodos e seus acessos não eram problema para ela. 

Com o caso praticamente encerrado e o relatório já rascunhado no bloco de notas, acendi um cigarro e sai dali pensando que fora mesmo uma pena não a ter convencido de abandonar seus planos naquele fim de semana que passáramos juntos entremeando seções de sexo com prática de tiro. No fundo, eu achava que devia ter insistido mais, que devia ter seguido sua rotina diária mais de perto, de forma que quando a visse estacionar ao lado do alpendre, pudesse chegar a tempo de lhe dizer que, se fosse ela, eu pegava a moto e não voltava mais. Teria assim evitado sua morte boba e talvez pudéssemos passar juntos novos e animados fins de semana.

(Imagem: http://img1.mlstatic.com/navalha-aco-inox-solingen-original-gemany-lmina-em-inox_MLB-O-227307073_3247.jpg)
Nona rodada, miniconto 3

Zé Maria


Então era verdade, ia mesmo ser substituída. Após ter enfrentado guerras, pestes, levantes, fazer a passagem sabe-se lá de quantos, centenas de milhares, milhões talvez, ia agora ser posta de lado. Com a notícia, surgira em mim uma mistura de ciúme, rancor, uma cólera difícil de administrar. Como ficar sem a sensação de ver um valentão diante de mim se acovardar e pedir clemência chorando feito criança? Ver o desespero do empresário que subornou e foi subornado a vida toda ao perceber que todo o dinheiro roubado não acrescentaria um minuto sequer na sua vida depois de estar diante de mim? Que virtudes terá a substituta? Rapidez? Eficiência? Frieza? Quer mais impiedosa do que fui com aquele político corrupto que desviava verba do SUS e estava com câncer na garganta? Ao invés de buscá-lo logo, enrolei meses, deixando-o penar bastante naquela cama de UTI e ainda trocava a morfina prescrita para ele por soro fisiológico pelo simples prazer de vê-lo desesperado dia e noite se contorcendo em seu leito de morte; ou como fui com o traficante que atuava na porta da escola quando foi baleado e ficou lá estrebuchando no meio do asfalto, ter pressa pra quê? Afinal, as drogas por ele fornecidas às crianças mataram mais lentamente e causaram muito mais dor e sofrimento a elas e as suas famílias do que aquela bala que levara no peito.

Já no caso de doentes terminais de boa índole, ninguém pode me acusar de fazer corpo mole. Foi sempre um serviço rápido e indolor, mas ali o caso é de misericórdia em que o prazer está em amenizar o sofrimento, abreviando sua penosa permanência entre os vivos. Na verdade, tenho que confessar estar meio cansada, cansada das madrugadas, das baladas com tantos jovens bêbados inconsequentes com seus carrões possantes e das vitimas causadas por eles. A começar por suas namoradas jovens, bonitas, que saem de casa lindas, arrumadas, maquiadas, produzidas para se divertir e acabam no meio da madrugada atiradas em uma rodovia escura como uma massa disforme no meio do asfalto. Fico arrasada sobretudo quando encontro no local os familiares com todo aquele sofrimento, toda aquela reza pedindo aos paramédicos que impeçam que eu faça o meu serviço. 

Agora! Que já saí daqui até rindo, isso já. Como quando o povo daquele bairro conseguiu flagrar o pedófilo que vinha há anos barbarizando as menininhas naquela vizinhança, confesso que fiquei de longe um bom tempo me divertindo, assistindo a toda aquela gente dar cabo dele na rua em que foi encurralado antes de tirar-lhe a vida. Também quando fui à mansão buscar o dono da usina canavieira que foi pego pelo pai da criança que eu buscara horas antes vitima de inanição, enquanto o pai se acabava de trabalhar nos campos, para garantir a vida nababesca do patrão. Confesso que esses eu busco e entrego com prazer para o Capiroto, Coisa Ruim, Lúcifer, Rabudo, Tinhoso ou seja lá como você conhece o Príncipe das Trevas. E ele como gosta! De longe já sente o cheiro de carne fresca e me espera no meio do caminho. Até eu, que faço isso há anos, tremo diante daquela figura nefasta com seus chifres, seu tridente e suas vestes negras como as que uso, mas com feições que fazem a minha parecer um rosto angelical. Ao me afastar, ainda sinto o calor, o aroma de churrasco de carne humana e ouço os gritos desesperados que vazam pela abertura do imenso portão do inferno por onde ele arrasta para as profundezas os seus novos hospedes e me apresso enquanto ressoam no ar suas gargalhadas de indescritíveis horripilância. 

Mas até aqui a gente se diverte. Ontem mesmo, passei por uma situação inusitada. Ao chegar a uma cena de assalto, encontrei o dono de uma moto já baleado sem gravidade no chão e o assaltante impiedoso sobre o veículo roubado se preparando para dar o tiro que justificaria minha vinda. Foi quando vi uma viatura da polícia dobrar a esquina a toda com seus ocupantes com meio corpo para fora das janelas e suas armas em punho fazendo mira no meliante que, desistindo do tiro fatal, acionou a moto e partiu para uma tentativa de fuga que certamente não iria muito longe. Quando me dirigi para a sua garupa, pois sabia o desfecho que aquilo teria, confesso que quase ri ao ouvir o jovem caído evitando me olhar diretamente dizer: se eu fosse ela, pegava essa moto e não voltava mais. 

Naquela noite entreguei o ladrão a Lúcifer sem saber que aquela seria a minha ultima entrega. 

Nona rodada, miniconto 2


Foda-se-me-nos



Eu estava casado há alguns anos quando comecei a trocar e-mails lascivos com uma garota da contabilidade da minha empresa. Um dia, ao sair do banho, encontrei minha esposa com cara de espanto olhando para o computador. Abri a boca para começar a me explicar, mas ela mandou eu me calar, levantou-se, foi para a sala, abriu um vinho e o tomou em silêncio. Eu esperei angustiado até que ela terminou a garrafa, veio até mim e disse:

- Eu entendo você. Dizem que o casamento é lindo, vai chegar e resolver todos os nossos problemas. Casaram e foram felizes para sempre uma ova. Casaram e quase morreram de tédio. E isso está muito errado, o amor deve nos libertar, não nos prender. Ano passado, quando eu comprei uma moto era isso que eu buscava: me sentir viva, sentir adrenalina no meu corpo de novo. Você preferiu buscar isso na garota da contabilidade.

Tá se sentindo atraído por ela? Quer pegá-la? Beleza, mas vamos pegá-la juntos.



*

No dia combinado, fomos os 3 para um motel. Ao chegarmos, estávamos envergonhados. Minha esposa abriu uma garrafa de vinho e, quando acabamos de tomá-la, ela foi até o som e colocou um CD de música francesa para tocar. Tirou toda a roupa, foi até minha colega de empresa e a despiu. Segurou-a pela mão, a trouxe até a cama onde as duas começaram a se beijar. Então, minha esposa guiou a cabeça da outra mulher na minha direção e nós dois nos beijamos. Há mais de uma década beijando apenas uma mulher, estava explorando a textura de uma nova boca quando comecei a sentir a língua da minha esposa se juntar a nossa.
Aquela noite, me senti como os atores pornôs que eu invejava desde a puberdade. Deixei de me sentir como um funcionário mediano para me sentir um garanhão predador.

*

Dias depois, um amigo que conheci durante um intercâmbio na adolescência precisou resolver alguns problemas na minha cidade e pediu para ficar hospedado em nossa casa. No dia que ele chegou, jantamos e todos conversamos muito. Ele continuava um cara divertido, inteligente e espirituoso.
Improvisei uma cama para ele na sala, fui para o nosso quarto onde minha esposa já aguardava na cama e, enquanto eu trancava a porta, ela anunciou:
- Deixa a porta aberta. Quando você se sentiu atraído por outra mulher, eu a recebi entre nós. Hoje, é a sua vez de retribuir.
Eu me senti humilhado. De garanhão tinha sido rebaixado a corno. Gritei, discutimos, apaguei a luz e nos deitamos brigados. Até que me dei conta: por egoísmo e machismo estava voltando a ser um burocrata medíocre.
- Que se foda. Vá lá chamá-lo. - Eu disse.
Ela o buscou, colou o CD de música francesa e começou a me chupar enquanto ele se aproximava dela por trás. Eu achei melhor não ver e fechei os olhos.

*

Eu deveria admitir: transar com duas mulheres foi a experiência mais excitante da minha vida, mas aquele rapaz mudou toda a dinâmica do nosso casamento. Eu e minha esposa chegávamos da rua e ele tinha cozinhado pratos que não fazíamos pois daria muito trabalho, usava temperos que não conhecíamos e nossas refeições silenciosas agora eram repletas de histórias inacreditáveis dos mais recônditos lugares do mundo. Nas horas de folga, íamos à praia e eu até voltei a surfar. Ele já estava há meses lá em casa e a cama improvisada na sala nunca tinha sido usada.

*

Um dia, cheguei bêbado em casa e ele estava na sala fumando no sofá. Sentei ao seu lado.
- Ela chegou cansada e já está dormindo.
- Fui encontrar um amigo. Eu precisava dividir essa história com alguém. Eu finjo ser moderno, mas isso tudo está mexendo com a minha cabeça.
- E o que ele disse?
- Disse que é escroto eu não me incomodar com alguém comendo minha mulher, mas se eu não sentir tesão quando o meu pau por acaso encostar no seu não é grave.
- E o que o seu amigo reacionário diria disso?
Ele se ajoelhou, abriu o zíper da minha calça e, como era comum naqueles dias, eu achei melhor fechar o olho.

*

Eu estava a cada dia mais confuso e minha esposa marcou uma psicóloga para mim. Mesmo achando que não precisava, fui até ela e narrei toda esta história. Ela ouvia em silêncio, às vezes balançando a cabeça afirmativamente.
- E por que você está aqui?
- Já disse, minha mulher insistiu para que eu viesse.
- Ela se preocupa com você. Sabe o motivo?
Fiquei um tempo em silêncio ouvindo o barulho dos carros passando do lado de fora até que respondi:
- Ela diz que tudo isso é invenção da minha cabeça, que nunca houve outro homem entre a gente. No início, ela entendia como uma brincadeira nossa, uma piada interna. Mas como isso é possível se eu vejo...
- Vamos supor que ela esteja certa e que você tenha inventado esse cara. Por que você teria feito isso?
- Não sei, talvez eu tenha ficado tão impressionado com a liberdade que ela lidou com o meu flerte que eu precisei criar alguém que estivesse à altura dela.
- A gente fica por aqui. Te vejo na quinta.

*

Quando cheguei a nossa casa, ele estava sem camisa lavando a moto da minha esposa do lado de fora. Ele perguntou:
- E aí? Foi na psicóloga?
- Fui sim. A patroa insistiu, né!?
- Se eu fosse ela, pegava essa moto e não voltava mais. Ninguém merece um marido louco.
Nós dois rimos e entramos em casa.

(Imagem: vídeo "Porn Sex vs Real Sex"http://vimeo.com/71729262)

sábado, 21 de setembro de 2013

Nona rodada, miniconto 1

A espera





Eram por volta de 2:30 da manhã do dia 23 de janeiro de 2013, o posto de gasolina estava vazio e somente três ou quatro pessoas ainda frequentavam a loja de conveniência naquela quarta-feira. Já não compensava manter o comércio aberto para atender meia dúzia de gatos pingados e eu e meu filho já nos preparávamos para encerrar o expediente, quando duas motos, com quatro ocupantes, estacionaram em frente à loja. Da garupa da primeira moto, desceu uma mulher nitidamente morena, mas de cabelos loiros, que avançou em direção à porta da loja sacando o 38 de dentro do blusão de couro, anunciando o assalto. Dentro do estabelecimento éramos somente quatro pessoas, o meu filho, duas clientes que ficaram petrificadas de medo e eu. Quando antevi que o assalto era iminente, tratei de manter-me calmo e imóvel, mas meu filho, que estava de costas, levou um tremendo susto e virou-se bruscamente tentando se defender. Algo que a assaltante interpretou como um gesto de ameaça e, por isso, acionou o gatilho. Vi quando a bala penetrou no peito de Helinho, fazendo seu corpo oscilar, jogando-o para trás. Corri em sua direção, mas uma coronhada jogou-me grogue no chão. Eu já não tinha mais dúvida, estávamos sendo assaltados pela ‘quadrilha da moto’, uma gangue responsável por muitos assaltos a postos de abastecimento da Zona Leste de São Paulo, conhecida por agir com extrema violência, liderada por uma famigerada criminosa conhecida pela alcunha de Tati Tresoitão. Ali, deitado sobre uma poça de sangue, vi o brutal assalto se desenrolar sem nada poder fazer, enquanto ao lado meu querido único filho despedia-se da vida. Terminado o assalto, a facínora andou em minha direção. Eu pensei que seria o fim, mas ela simplesmente encarou-me, deu um sorriso cínico, frio, caminhando em seguida de volta para a moto. Se eu fosse ela, pegava essa moto e não voltava mais, porque se voltar estarei à sua espera – pensei pouco antes de desmaiar.

*


Hoje, quatro meses depois do assalto que culminou com a morte de meu único filho, minha vida mudou completamente. Antes, eu tinha uma família e um negócio próspero. Agora, sou apenas um homem solitário buscando um último e definitivo prazer – a vingança. Minha esposa enlouqueceu ao saber da morte de nosso filho e permanece internada numa instituição para doentes mentais, sem, na minha opinião, qualquer possibilidade de recuperação. Passei dois meses internado devido à pancada na cabeça e o negócio próspero que possuíamos degringolou, perdeu clientela, encontrando-se atualmente à beira da falência. Mas nada disso importa. O importante é que sinto no fundo da minha alma que um dia Tati Tresoitão voltará numa dessas madrugadas da vida e eu estarei à sua espera, pronto para fazer justiça. 

E há de ser um momento único, divino, apoteótico, que compensará as madrugadas de espera sem fim e cada minuto de minha vida sem sentido desde o dia 23 de janeiro de 2013.